Fotografia: Marcos Mendes

 

Gostar de ler

Uma conversa com os meus jovens leitores

 

Uma vez me perguntaram por que há pessoas que gostam de ler e outras não. Sempre me pareceu que há pessoas que já nascem gostando de ler e que eu era uma delas. Mas, nesse dia, parei pra pensar e mudei a minha opinião.

Por acaso, quando criança, tive à disposição dezenas e dezenas de livros. Hoje eu acho que esse foi um dos motivos principais para que me tornasse uma leitora e, mais tarde, escritora.

Na minha infância havia poucos livros infantis e juvenis, mas eu tinha uma madrinha professora que me dava livros em todos os meus aniversários e natais. Aos poucos fui me acostumando a ler e esses livros, por ódio ou por amor, ainda fazem parte da minha vida. Sofri com “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár, participei das aventuras das personagens do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, do nosso Monteiro Lobato... E até hoje me lembro da raiva que eu tinha de “As meninas exemplares”, da Condessa de Ségur. Meninas tão certinhas, tão chatas... Argh! Ainda bem que havia a Sofia, que cometia desastres, era tão divertida! (“Os desastres de Sofia”) e deixava um espaço para que também se pudesse errar.

Já entrando na adolescência, eu usava toda a minha pequena mesada para comprar livros. Ah, quanto eu aguardava aquele dia! Havia uma pequena livraria perto da minha escola e eu pegava os livros, lia a “orelha”, sentia o cheirinho gostoso de papel impresso e, com vontade de levar todos, escolhia um.
Mais tarde, por sorte, descobri uma estante atulhada de livros de adultos, esquecida no quarto de despejo da minha casa. Foi o melhor presente que eu poderia ter ganho: clássicos da ficção brasileira e portuguesa, livros de mistério, de poesias, um pouco de filosofia, religião e até um livro de educação sexual!

Com 12 anos eu já era viciada em leitura! Muito mais do que para passar tempo, ou para aprender, lendo eu vivia em um mundo encantado. Através das histórias, eu viajava, participava de situações inusitadas, dava cara e voz aos personagens, apreciava lugares lindos, trocava idéias, questionava, fazia descobertas...

E eu experimentava os livros, um a um, para encontrar aqueles que conversassem comigo e os saboreava como se fossem bombons recheados de morango! Ficava triste quando o livro terminava...

É que o livro tem de nos atrair, tem de falar a língua da gente! Se isso não acontecer, devemos deixá-lo de lado e experimentar outro e mais outro... Aquele livro pode ser inadequado à nossa idade ou, às vezes, é monótono ou rápido demais e não combina com a nossa personalidade no momento.

Mas “deixar o livro de lado” não quer dizer esquecê-lo para sempre! Um dia, em outra época da nossa vida, aquele mesmo livro desprezado pode combinar maravilhosamente conosco.

Há também os livros que podem ser lidos várias vezes, em diferentes fases da nossa vida, e a cada uma delas o descobriremos diferente, como é o caso de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll.

Por isso tudo vemos a importância de ter sempre à mão livros de vários estilos que tratem de variados assuntos. Uma vez eu fui a uma escola em Minas onde havia uma pequena biblioteca em cada classe, um aluno bibliotecário... Que idéia feliz!

 

Edith Modesto

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